O jegue da Medula
Atendendo divulgação da campanha de cadastro de doares voluntários de medula óssea, dei uma chegada Clube Palmeiras, em Iguaba Grande, onde a mesma seria realizada.
Ao descer do carro, vi, ao longe, na porta do clube, pessoas fotografando algo que me parecia ser uma jaula, ou uma grande gaiola. Apertei o passo, aproximei-me e, incrédulo, vi, dentro da engenhoca, posando, sob flash, de pop star. Pensei: essa não, logo em Iguaba esse jegue veio doar medula óssea, só faltava isso, depois de tantas…
Como o positivismo fala mais alto, mudei a tônica do pensamento. Achei que seria ótima a presença do jegue e que, talvez, ocorresse ali, naquele momento, um transplante genético, coisa de primeiríssimo mundo. Minha esperança no fato fortaleceu-se quando notei, no local, um entrevistador - microfone em punho -, e pessoas ávidas em dar seu depoimento.. Mais crédulo fiquei, sobre o grande acontecimento, quando observei pessoas em volta de um carro, ouvindo pelo rádio as entrevistas realizadas. O máximo! Concluí. Iguaba na mídia, no Brasil, no mundo, enfim! Mas, a bola logo murchou.
Na rádio - que era ouvida no carro -, reconheci a voz de um conhecido político da região. A emissora, não era a Globo, ou a CBN, mas, sim, a super 560 AM de Araruama. Esfriei, mas…, bem, antes pouco do que nada. Para minha surpresa, apesar de se dizer que “de onde não se espera é que não sai nada mesmo”, daquele radinho do fusca velho saiu muita coisa que deixou, quem ouviu, de cabelo em pé, assustado.
O jegue era o garoto propaganda do programa radiofônico “Canal Aberto” e quem vociferava na rádio AM era o patrão do jegue, o ex-prefeito Chiquinho de Araruama. Estava bravo. Dizia-se ser fiador da campanha do atual prefeito de Iguaba e que esse não estava cumprindo com as promessas de palanque. Disse, ainda o Chiquinho, que pretendia estar em Iguaba naquele momento, mas um problema de saúde o impediu.
Chiquinho ouviu queixas de moradores e, quando foi dito por um homem que sentia-se envergonhado da situação caótica da cidade, que as mudanças anunciadas em campanha mudaram Iguaba para pior, o dono do jegue se enfezou, aumentou o tom da sua voz e disse “o atual prefeito, em palanque, junto de mim, prometeu mudar o trânsito da rua principal, prometeu acabar com a taxa de iluminação pública, etc. etc., e não fez nada!”. Diante de afirmações tão enérgicas - ou, quem sabe, para puxar o saco do patrão - até o jegue balançou a cabeça positivamente.
O jegue, que já estava simpatizando por Iguaba, até sorriu quando Chiquinho afirmou “não é possível um senhor de cabelos brancos não cumprir o prometido em campanha” e reafirmou que virá a Iguaba, em breve, e virá para “meter o porrete na administração do atual prefeito”. Com essa afirmação e com a certeza de que, como garoto propaganda, viria também, o jegue ficou tão feliz que uma enorme poça logo formou-se em baixo da sua jaula - uns se molham de medo, outros de alegria.
Esse jegue saca tudo rápido, tá ficando sabido e politizado. Sabe até que em política tem hora de rir, de chorar e de fazer pipi, principalmente quando ouve a voz de quem riu em palanque de candidatos de vários municípios, agora chora e se prepara para regar a horta - no mau sentido - de quem, segundo ele, não está cumprindo com as promessas.
Pelo visto - e ouvido - a administração do atual prefeito já tem abrir guarda chuva. Além da AM 560, o jegue já espalhou pela cidade que, depois dele, vem o bode, que é muito pior. Como dizem que o brinquedo do Chiquinho quando criança era a Arca de Noé, deve vir muito bicho por aí e muita água também. É bom ficar de olho que o bicho pode pegar…
Caubi Resende é empresário do ramo hoteleiro e diretor de Turismo da Associação Comercial de Iguaba Grande
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