No mundo da goiabada cascão

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Caubi Resende

Na minha caminhada diária, via final da praia/Morro do Governo, fui surpreendido, dias desses, por um pedaço de madeira fina, com preguinhos na borda, caída no chão à minha frente, envelhecida, com uma marca nela carimbada, escrita “PEIXE”. Abaixei-me, apanhei a pequena peça do tamanho mais ou menos de um livro e, surpreso, me certifiquei: era uma tampa de caixa de goiabada cascão que, há quarenta anos, sumiu dos mercados – aliás, na época chamados de armazéns.

Com a tampa da caixa nas mãos, voltar ao passado foi um pulo, para trás, é claro. Lembrei dos tempos de criança, dos caminhões de frutas nas praças do Rio, não esses de abacaxi e melancia que se vê por aqui, mas aqueles com cascatas de uvas, de caixas maçãs enormes, argentinas, envolvidas por papel roxo, fino, escrito exportação. Os caminhões, juntos com os carrinhos da Kibon e carroças de algodão doce, eram uma festa de beleza e cores. Quem não se lembra da música “Uva de Caminhão”?

Falar de praças e frutas no Rio de ontem é lembrar também dos bondes da época. Eram lindos, geralmente, o carro chefe com um ou dois reboques, com crianças, idosos e mulheres nos bancos e os homens de trinta e a rapaziada nos estribos dependurados. A vida por um fio, a alegria da ida para o trabalho e o prazer maior da volta para casa, chegando são e salvo. Havia também o bonde “taioba” de carga, que levava passageiros pela metade do preço, com direito a transportar grandes volumes. Esse não tinha estribo. Era fechado, com uma porta de entrada e outra de saída, na lateral.

Falar do bonde de quarenta anos atrás, ou mais, chega-se, inevitavelmente, ao seu valor no carnaval; que era, em grande parte, neles realizado. Famílias inteiras e pequenos blocos faziam viagens em trajetos de mais de quatro horas, ida e volta, cantando as músicas divulgadas pelo rádio, de novembro a fevereiro, pelos cantores da época. As músicas mais cantadas nos bondes eram as vencedoras do carnaval. Tornavam-se sucesso no Brasil todo e consagravam novos cantores ou confirmavam o prestigio de Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Virgínia Lane, Black-out, Jorge Goulart, vencedores de vários carnavais do passado com músicas conhecidas até hoje pelas crianças do século XXI.

Carnaval e futebol sempre andaram juntos na preferência popular. O futebol da época da goiabada cascão em caixa, era futebol de verdade. Os times, quando grandes, eram grandes mesmo, Há mais de quarenta anos, Flamengo, Vasco e Fluminense eram o topo. Botafogo era mais ou menos, O resto era o resto. Hoje misturou tudo. É uma balança só. Uma hora o timão está no alto, de repente passa para a segundona, e o timinho dos cafundós disputa palmo a palmo o título. Esporte, naquela época, era só o futebol. Basquete e vôlei a gente só via em filme americano. Natação, só quando o Rio de Janeiro enchia, com as chuvas, e alguns morriam afogados por não saber nadar.

A tampinha da caixa de goiabada cascão me fez lembrar também do meu colégio, o Instituto La Fayette da Tijuca, dos meus tios, dos meus pais, dos meus avós, de amigos que o mistério do “por onde andará?” levou. Tudo muito bom, mas bom mesmo, de lamber os beiços, como se dizia na época, é o gostinho da goiabada cascão com queijo curado. Há uma música da Beth Carvalho que diz: “goiabada cascão em caixa, é coisa boa, sinhá, que ninguém mais acha”. É mesmo, e estamos conversados! O resto são saudades de um ex-garoto que andou pelas bandas do Rio de Janeiro, há mais de quarenta anos atrás e que achou, perto da lixeira de uma múmia um pedaço de pau carimbado, escrito peixe. Vai pescar velharia assim no caixa prego, te esconjuro…

Caubi Resende é empresário do ramo hoteleiro e diretor de Turismo da Associação Comercial de Iguaba Grande

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