Carta de Iguaba Grande para Papai Noel
Caubi Resende
Querido Papai Noel
Tenho já 13 anos, sou uma garota simples, típica do interior, quase sem recursos e, apesar de estar a mais de cem quilômetros dos grandes centros, como frequentadora de Lan House (uma vez por semana) sei, através da internet, muito bem o que quero, do que preciso, para ser considerada uma cidade com letras.
Tenho inveja, Papai Noel, do crescimento da cidades vizinhas, como Araruama e São Pedro da Aldeia, que estão mais bem contempladas do que eu pelo senhor. Por que será que gostas mais delas do que de mim? Engraçado, geralmente o filho caçula na família é o mais paparicado. O senhor não tem família, Papai Noel? Então, por que eu estou tão largada assim, quase esquecida? Compara só…
Papai Noel, sobre esse meu abandono, era para ser bem assim. As cidades de que tenho inveja têm número de habitantes muito maior do que eu, área em quilômetros também, ou seja: o tamanho é muito maior do que a minha e, na proporção, no orçamento, o têm de grana para gastar com roupas, sapatos, pinturas - essas coisas de mulheres -, não é proporcionalmente mais do que tenho. No final das contas, somando tudo, eu tenho até mais. Quer ver só?
Se eu gastasse todo o meu recurso do ano fazendo rabanadas nesse Natal e distribuísse as rabanadas para os meus 20 mil habitantes, cada um comeria mais rabanadas do que a população de São Pedro e Araruama, se fizessem o mesmo. Se aqui tem mais recursos, com mais rabanadas, com carboidratos e proteínas, por que estou custando a crescer? Por que as vizinhas comem menos e crescem mais? Papai Noel, não vem com essa história de marca melhor de fermento, não, tá?
Papai Noel, falando a verdade, acho que isso acontece por que na sua relação de presenteados, o senhor está desconsiderando a minha condição de caçula; está relaxando, descuidando da minha política, trocando nomes de prefeitos a cada eleição e isso deve estar prejudicando a governabilidade (aprendi esta frase com Dona Dilma, que fala isso toda hora). Além disso, bom velhinho, eu não me conformo em ver coisas que acontecem comigo, que tenho algum recurso, como ser uma cidadezinha inexpressiva por não ter uma praça decente, ajardinada, iluminada, arborizada para ver a criançada brincar e a terceira idade descansar, sentada à sombra,à beira de um laguinho. Desculpa, se mal lhe pergunto, Papai Noel: O senhor já foi a Silva Jardim (aqui pertinho)? Pois é, lá tem. No caminho passe pelo distrito de São Vicente, que tem pracinha também…
Papai Noel, eu queria ter uma rua só de pedestres para proporcionar compras tranquilas, queria ruas com as vagas delimitadas, de verdade, para carros, motos e bicicletas, sem essa confusão que existe aqui. Queria bancos nas prais para sentar e ver sol se por com os quiosques funcionando legal. Queria tirar das minhas vistas estas ruas esburacadas, sem calçadas, com terrenos baldios sem muros; não ver essas vias enlameadas quando chove - algumas até na seca, com esgoto -; não ter essas ruas de asfaltos quebrados pela má qualidade, pelas enxurradas, pela Prolagos e até pelos moradores.
Minha orlas, Papai Noel, tem calçadão na praia, mas o lado oposto está de matar - para não dizer de morrer -, com buracos, resto de calçamentos enlameados, pedaços estreitos, pedaços largos, sem qualquer alinhamento. Gente andando na estrada e carros onde seria calçada, quase atropelando a gente, derrubando ciclistas e motociclistas.
Já que pagamos taxa de luz, a iluminação da cidade poderia estar melhor. Acho que, devido ao escuro, o senhor tem tido dificuldade de me encontra n o Natal, deixando-me, ao longo dos anos, só migalhas de fim de estoque quando me acha nos últimos minutos do dia 24.
Papai Noel, se não sobrar nada para mim no Natal, ensina-me ao menos como administrar meu dinheirinho. Parece que estou gastando mais do que devo nesses anos todos. O dinheiro entra, sai, mas fica pouco de realizado. Acho que a barriguinha do meu porquinho de barro da poupança está rachada. Aproveita e me traz uma super bonde, vai! Se ganhar de alguém, por favor, traz no saco. Esse negócio de guardar na meia ena cueca não é comigo não. Eu não sou Brasília - ao menos disso me poupe, amém.
Abraços da menina Iguaba Grande.
Caubi Resende é empresário do ramo hoteleiro e diretor de Turismo da Associação Comercial de Iguaba Grande.




